sábado, 22 de março de 2014

Como punir o líder do Kremlin

Por Alexei Navalni


Alexei Navalni* – The New York Times/O Estado de S.Paulo

No momento em que escrevo este artigo, estou sob prisão domiciliar em Moscou. Fui preso num comício de apoio aos manifestantes contrários a Vladimir Putin detidos no mês passado. Em setembro, disputei a prefeitura de Moscou como candidato da oposição, defensor da democracia e das reformas. Recebi quase um terço dos votos mesmo sem ter nenhum acesso à mídia.

Meu blog, que até recentemente recebia 2 milhões de visitas por mês, foi bloqueado por ser considerado “extremista”, depois que insisti que deveríamos manter relações amigáveis com a Ucrânia e o respeito pela lei internacional.

Há anos afirmo que o índice de aprovação de Putin aumentaria e depois despencaria. A economia russa está estagnada e a população, em breve, se cansará das promessas vazias do presidente. Mesmo uma aventura militar com apoio popular – uma “pequena guerra”, como se diz na Rússia – seria impossível, na minha opinião. A Rússia não tinha mais inimigos.

Então, em 28 de fevereiro, foram enviadas tropas para a Ucrânia, exatamente uma “pequena guerra”. Reconheço que subestimei o talento de Putin para fazer inimigos, como também sua devoção por governar “como presidente perpétuo”, com poderes similares ao dos czares. Como cidadão e patriota, não apoio ações contra a Rússia que só irão piorar as condições do povo. Portanto, apresento duas opções que, se implementadas com sucesso, seriam bem acolhidas pelos russos.

Em primeiro lugar, apesar de a invasão já ter levado a União Europeia a impor sanções contra 21 autoridades do governo, e os EUA contra 7, muitas dessas pessoas não são tão influentes. As sanções decretadas contra elas não mudarão a política da Rússia.

Apesar da linguagem dura dos políticos ocidentais, as medidas adotadas foram ridicularizadas e consideradas até um apoio tático a Putin e seu séquito, que parece ter uma imunidade sobrenatural.

Inversamente, as nações ocidentais devem agir para criar um forte abalo no estilo de vida luxuoso desfrutado pelos apadrinhados do Kremlin, que viajam constantemente entre Rússia e Ocidente. Ou seja, congelar os ativos financeiros dos oligarcas e confiscar suas propriedades. Estas sanções devem ter como alvo o círculo mais chegado a Putin, a máfia do Kremlin que saqueia a riqueza do país.

As sanções devem ser impostas também contra oligarcas cujas organizações de mídia apenas repetem as frases do governo e devem ter como alvo todo o “gabinete de guerra” de Putin: os manipuladores de opinião, membros submissos da Duma e apparatchiks do partido Rússia Unida, de Putin.

A invasão da Ucrânia polarizou membros da elite russa e muitos a consideraram temerária. Sanções, como bloquear o acesso a seus suntuosos apartamentos em Londres, mostrarão que a loucura de Putin significa um custo muito alto.

Em segundo lugar, as autoridades ocidentais precisam investigar bens adquiridos ilicitamente pela Rússia dentro de suas jurisdições. A Fundação Anticorrupção, que abril em 2011, revelou dezenas de fraudes. Em 90% dos casos, dinheiro russo foi lavado no Ocidente. Infelizmente, as polícias de Grã-Bretanha, UE e EUA têm obstruído nossos esforços para investigar essa pilhagem criminosa.

Mesmo entre os russos mais nacionalistas e pró-soviéticos, o desejo de restaurar o domínio russo na Crimeia esvaneceu há anos. Putin, contudo, cinicamente, elevou o fervor nacionalista a um estado de extrema excitação. A anexação imperialista foi uma decisão estratégica para aumentar a sobrevivência do seu governo. Mobilizar as massas de modo a desviar a atenção de problemas reais, como a corrupção e a estagnação econômica, só pode ser feito sob a bandeira do combate a inimigos externos.

Realmente alarmante é o fato de Putin ser motivado por um desejo de vingança contra o povo ucraniano que se revoltou contra um governo amigo do Kremlin. Um político racional saberia que a realização de um referendo local para determinar a soberania é perigoso para a Rússia, uma federação de mais de 80 regiões díspares, incluindo mais de 160 grupos étnicos e pelo menos 100 línguas.

A comunidade internacional tem a ilusão de que, mesmo que Putin seja corrupto, sua liderança é necessária porque seu regime subjuga as sinistras forças nacionalistas que, do contrário, assumiriam o poder na Rússia. O Ocidente deve reconhecer que também subestimou as intenções malignas de Putin. Está na hora de pôr fim a essa perigosa ilusão que lhe permite agir como quiser.

*Alexei Navalni é um dos líderes da oposição russa.

FONTE: O Estado de S. Paulo

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