quinta-feira, 27 de março de 2014

A resposta balcânica ao referendo da Crimeia





Foto: RIA Novosti

Os países da antiga Iugoslávia deveriam criticar o direito dos habitantes da Crimeia à autodeterminação. A maioria deles alcançou sua independência precisamente através de referendos apoiados pelo Ocidente, e alguns mesmo através da guerra.


É por isso que hoje são de estranhar as duras declarações provenientes dos Bálcãs relativamente à questão da Crimeia e mesmo a aplicação de sanções pela Macedônia em relação à Rússia. No entanto é precisamente este país o que mais depende dos investimentos russos.

Os políticos da UE e dos EUA nos países balcânicos recordaram imediatamente a esses governos quais eram as suas obrigações. Assim, o chefe da representação da União Europeia na Sérvia, Michael Davenport, declarou que a crise ucraniana era muito séria, e que a UE esperava dos “países-candidatos um apoio às suas posições em política exterior”.

Entretanto, segundo informou o primeiro vice-premiê do governo tecnocrático sérvio Aleksandar Vucic, a Sérvia não irá ceder às pressões de Bruxelas e não irá decretar sanções com proibições de viagens e “congelamento” de contas bancárias de políticos da Rússia e da Crimeia: “A Sérvia está a caminho da UE, ela cumpre as suas obrigações, mas não irá hostilizar a Rússia.” Isso foi comentado pelo vice-premiê da Federação Russa Dmitri Rogozin na sua página do Facebook: “O partido de Aleksandar Vucic, que venceu as eleições, não pretende ladrar contra a Rússia. Nós não iremos esquecer isso.”

Também na Bósnia e Herzegovina o desejo de agradar a Bruxelas não é partilhado por todos. O membro sérvio da Presidência, Nebojsa Radmanovic, referiu: “A presidência da Bósnia e Herzegovina não irá aderir à declaração da União Europeia sobre a situação na Ucrânia porque durante o processo de consultas não foi atingido um consenso entre os membros da presidência da Bósnia e Herzegovina, o qual é necessário em assuntos de política externa.” Ele tinha votado contra.

A posição dos sérvios da Bósnia é clara. O presidente da República Sérvia da Bósnia, Milorad Dodik, felicitou o povo da Crimeia pelo seu referendo democrático e bem organizado sobre a sua unificação com a Rússia. O embaixador da Federação Russa na Bósnia e Herzegovina, Alexander Botsan-Kharchenko, agradeceu ao presidente da República Sérvia da Bósnia o seu apoio à população da Crimeia. Já a embaixada da Ucrânia na Bósnia classificou a posição de Dodik como “abertamente hostil à Ucrânia”.

Para a Croácia, a posição da Rússia relativamente à Crimeia é mais que inadmissível, mas o país não tenciona introduzir sanções. Pelo menos até ao próximo passo de Moscou. Isso se deve ao fato de se aproximar a época turística e a Croácia, que registrou no ano passado uma enorme quebra no turismo devido à introdução de vistos para os turistas russos, não quer agravar ainda mais a sua situação econômica.

A Eslovênia também não reconhece os resultados do referendo da Crimeia. Apesar de o ministro das Relações Exteriores Karl Erjavec considerar que “sanções duras podem empurrar a Rússia para medidas mais drásticas e então serão fechadas as portas para o diálogo político. A Eslovênia é, de todos os países da UE, quem tem melhores relações com a Rússia, que para nós é um parceiro econômico muito importante”.

Já o Montenegro e a Albânia aderiram às sanções da UE contra a Federação Russa. Isso apesar de no Montenegro os turistas russos representarem um terço do fluxo total de turistas, com quase 300 mil por ano.

Qual foi a resposta da Rússia? Na recente grande mostra internacional de turismo realizada na Rússia (MITT - Viagens e Turismo) os operadores turísticos russos ignoraram o pavilhão do Montenegro, preferindo os expositores da Turquia, Itália e outros países, lamentou o presidente da Associação de Turismo do Montenegro, Zarko Radulovic. Parece que a adesão do governo montenegrino às sanções da UE irá predeterminar os resultados da próxima época balnear das costas do Montenegro. Sim, o primeiro-ministro do Montenegro Milo Djukanovic afirmou em Bruxelas que “o Montenegro não é uma praia de Moscou”, mas um país soberano com padrões democráticos desenvolvidos, contudo até no seu país haverá muitas vozes discordantes.

Em geral, podemos dizer que as decisões diplomáticas dos países dos Bálcãs relativamente à questão da Crimeia dependem em muito das suas ligações econômicas à Rússia. Tendo em conta os apelos de Bruxelas e de Washington, esses países tentam analisar a situação de um ponto de vista pragmático. Todos, excetuando o Montenegro, o qual parece ter assumido abertamente uma posição anti-russa, tendo esquecido os 300 anos de amizade que a unem à Rússia.

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