terça-feira, 18 de fevereiro de 2014

Contragolpe Militar de 1964 - Aeroporto dos Guararapes

RECIFE — Filho de uma das vítimas fatais de um dos episódios mais emblemáticos do período pós 1964 — o atentando a bomba no Aeroporto dos Guararapes, que tinha como alvo o então candidato à sucessão presidencial, General Costa e Silva — o advogado Flávio Régis questionou o trabalho da Comissão Estadual da Memória e da Verdade Dom Hélder Câmara, por não investigar a fundo as responsabilidades pelo ato terrorista, que matou duas pessoas e deixou pelo menos 14 feridas no dia 25 de julho de 1966, em Recife. 


Ele disse que a família não quer alimentar o sentimento de revanche pela morte de Édson Régis, mas espera da entidade um trabalho imparcial, e que as vítimas tanto da esquerda como da direita tenham o mesmo tratamento.

— A Comissão precisa ser imparcial. Ela foi criada para investigar crimes contra a humanidade. Mas fecha os olhos aos crimes praticados pelos inimigos do regime militar. Meu pai era um servidor público, estava a serviço do estado e foi tão vítima quanto muitos dos anistiados. A dor permanece até hoje. Crescemos eu e meus irmãos, como filhos do jornalista trucidado no aeroporto. As pessoas nos chamavam de covardes, cobravam reação da família e nos acusavam de não fazer nada. Meu pai não estava armado, era um homem pacífico, estava no dever de ofício e nunca passou pela nossa cabeça que fosse vítima de uma morte tão brutal — disse o hoje assessor parlamentar.

Quando a bomba explodiu, Édson Régis, jornalista, esperava o general Costa e Silva no aeroporto, exercendo a função de secretário de governo do então governador Paulo Guerra (que sucedeu Miguel Arraes após o golpe).
Ele lembrou que ele e os irmãos foram recolhidos um a um nos respectivos colégios e levados para o aeroporto, onde havia "estourado uma bomba". O pai não estava mais lá, porém seu corpo foi encontrado logo depois no Hospital da Aeronáutica, que fica próximo ao aeroporto:

— O lençol que o cobria era vermelho, porque o branco mudou de cor de tanto sangue. Suas pernas estavam totalmente mutiladas, despedaçadas. Aquela imagem nunca se apagou, e eu, menino, não entendia como uma bomba fizera aquilo, porque até então as bombas que eu conhecia eram aquelas, das festas de São João. Depois vieram as ilações ora de que o atentado teria sido praticado pela esquerda, ora pela direita — disse.

Um documento a que a Comissão teve acesso, com timbre do gabinete do Ministro da Aeronáutica, datado de 6 de janeiro de 1970, registrava que o executor do atentado foi o ativista Raimundo Gonçalves Figueredo, ligado à Ação Popular (AP). De acordo com o documento, ele e mais dois companheiros teriam agido à revelia da cúpula da organização clandestina.

— Lamentavelmente essas investigações demoraram a ser iniciadas. Não temos menor dúvida que pelos descaminhos da vida, muitos rastros desse caso se perderam. O que temos a lamentar é que a verdade oficial não tenha sido a verdade, o que permitiu versões conflitantes e muitas jamais serão totalmente esclarecidas.
Outra dirigente da comissão, a historiadora Socorro Ferraz, lembrou que o processo é complexo e contraditório, e que as provas técnicas sobre o atentado não foram suficientes na época do ato terrorista nem o são hoje. Ela lembra que os documentos secretos, que são dois até agora obtidos pela comissão, só falam em um autor.

Ela reconheceu ser difícil restabelecer toda a verdade, mas admitiu que a comissão pode chegar próximo a ela. Ao sair da sessão, Flávio Régis afirmou que o sentimento era de frustração.

— Achava que, pela história dos componentes da comissão, tinha encontrado uma luz no fim do túnel. Queremos saber quem foram os desaparecidos, os que sofreram torturas, mas queremos também saber quem foram aqueles que formavam uma minoria que pregava a luta armada, a violência, e que fizeram vítimas como as do atentado do aeroporto. Eram os porra-loucas, talvez os aloprados de hoje. Queríamos investigar a origem e as consequências disso aí. São todos anistiados, não vai haver penalização. Não é revanche, nem vingança. Queremos apenas que a História verdadeira seja escrita. A verdade tem que ser inteira, e o trabalho da comissão não pode ser engessado.
Para o advogado da família de Régis, Albézio Farias, a comissão está equivocada:

— Não se pode fazer uma interpretação tacanha das limitações da lei. Não se pode buscar a verdade direcionando-a. A verdade tem que ser inteira. A meia verdade pode ser uma mentira completa. Não se pode engessar a comissão. A família não quer juízo criminal, mas saber quem foram os autores do crime — disse.
O general alvo do atentado livrou-se da explosão, porque ao invés de usar o avião — como estava previsto — veio de carro de João Pessoa para o Recife.

Fonte: O Globo 


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